1.3 Faustina

 Os fatos abaixo relatados se deram nos anos finais da escravidão no Brasil, pelo que alguns termos e situações podem causar desconforto. Contudo, esperamos que a presente narrativa enalteça o reconhecimento de gente de real valor, e a fraternidade, ainda que em situações-limite. Em caso de desagrado, pedimos desculpas de antemão, assim como também tolerância e compreensão aos costumes da época. Pedimos também que utilize os comentários para nos comunicar suas percepções.

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A ESCRAVA FAUSTINA MARIA DE JESUS


Filha de escravos e escrava como eles, Faustina foi criada e educada pela branca Mãe Inácia, solteira, que morava em companhia do abastado irmão “Nhô” na sede da cidade de São Gonçalo do Sapucahy. O carinho especial da sinhá, para com a escrava não passava despercebido a sua vizinha Graciana Araújo Macedo, fazendeira que costumava deslocar-se com toda a família para a cidade, por ocasião das grandes festas da Igreja.

Mãe de muitos filhos, culpava-se porque, entre seus muitos afazeres, não tinha tempo de mimar como gostaria a caçulinha Emília. E divagava consigo mesma: "Se Dona Inácia cria assim essa menina, como não haveria de acarinhar minha Emília?".

Movida por sentimento de culpa, essa ideia acabou tornando-se obsessão... E, de comum acordo com seu marido Antônio Joaquim, Graciana expôs à Mãe Inácia seus intentos, obtendo entusiasmada aprovação para sua concretização.

Na próxima ida da família a S Gonçalo, a pequena Emília não regressou à fazenda dos pais, ficando a residir com Mãe Inácia. Passou, então, a desfrutar de carinhos e mimos, a que não fora acostumada e da companhia da alegre Faustina, poucos anos mais velha que ela. E acostumou-se logo à nova vida.

Com o passar do tempo, Graciana não se aguentava mais de saudades da caçulinha. Por isso, na próxima ida da família a São Gonçalo, desfez o trato com D. Inácia, e trouxe Emília de volta para a fazenda. Contrariada com a decisão da mãe e entristecida por se achar novamente na monotonia rural e sem os mimos a que já se acostumara, Emília reagiu fechando-se num mutismo total! E como permanecesse nele e começasse a emagrecer a olhos vistos, os pais e irmãos começaram a se preocupar

Certo dia, sua voz voltou a ser ouvida entre espasmos de alegria: "Mamãe evem! Mamãe evem! Mamãe evem! Ninguém entendia a razão de sua estranha mudança de atitude, até que uma mucama, viu da janela um tílburi, aproximando-se da fazenda. Dentro dele estava D. Inácia, que não aguentando as saudades, viera visitar a menina!  Ao revê-la, Emília saiu de seu mutismo e começou a rir e a pular!

À evidência dos fortes laços de afeto que se estabeleceram entre ambas, Graciana, a mãe biológica, concluiu que Emília deveria voltar a São Gonçalo com Dona Inácia e que lá ficasse em definitivo.

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Àquela época, Mãe Inácia recebia todo apoio financeiro do abastado irmão “Nhô”. Havia fartura e alegria na casa e as meninas cresciam e já começavam a se tornar moças. Então, aconteceu que Faustina engravidou e veio a dar à luz uma menina. 

Mãe Inácia certamente ficou muito aborrecida com o ocorrido, mas, com o nascimento da menina, acabou por sentir-se revigorada como avó, imaginando-se a matriarca de um clã e dedicando-se ainda mais à sua pequena e querida família. Foi quando o inesperado falecimento de Nhô anunciou o fim dos rendimentos e completa modificação na situação econômica de D. Inácia... 

Pelos costumes em voga na segunda metade do Século XIX, as mulheres eram totalmente dependentes do apoio financeiro masculino e passavam a ter muitas dificuldades quando se viam desprovidas desse vital arrimo.

A solução de Mãe Inácia foi recorrer à ajuda de uma irmã casada, residente na vizinha cidade de Campanha. Em seu lar, ela e Emília foram bem acolhidas e Faustina veio a constituir um grande reforço na famulagem da casa. Mas o anfitrião, cunhado de d. Inácia, rejeitou de forma peremptória a neném, considerada como "mais uma boca a alimentar". E, terminado o tempo de aleitamento materno, proibiu que ela fosse alimentada em sua casa!

Estando todos à mesa, a neném era posta aos pés de Dona Inácia e de Emília, que camufladamente, ajuntavam bocados de comida na mão e os levavam à boquinha faminta da menina, por sob a mesa. A neném arrastava-se ao chão, ora recebendo comida da mão de uma, ora da mão de outra. Se chorava, Faustina tinha que correr da cozinha, para tirá-la dali.

A situação era precária e a neném, cada vez mais debilitada, veio a falecer. Uma dura provação para Faustina. Talvez, pior de sua vida.

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Emília conseguira aprovação no curso primário. Nessa época, funcionava em Campanha o Colégio Marianno, habilitado a formar professoras. Emília passou a sonhar com essa possibilidade, que lhe abriria portas para a independência financeira negada às mulheres daquele tempo. Mas como não poderia arcar com as despesas, resolveu desistir da idéia. Entretanto, Faustina se interpôs a essa resolução, propondo-se, para conseguir os recursos necessários aos estudos da Emília, a arranjar toda sorte de serviços, que prestaria depois de terminada a exaustiva faina na casa onde residiam... 

Passou, desde então, para possibilitar a formatura de Emília, a lavar e passar roupas, e a fazer doces e desdobrando-se pelo sucesso da irmã branca, que a vida lhe dera. E os estudos de Emília vieram a bom termo, à custa do suor e do extremado amor da abnegada e valente amiga escrava.

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Após o término dos estudos da Emília, ela, Mãe Inácia e Faustina puderam regressar a São Gonçalo, onde Emília conseguiu colocar-se como Mestra, bem remunerada pelo poder público. Casou-se, aos 21 anos e, dois anos depois, veio a abolição da escravatura. 

Faustina manteve-se sempre ligada à vida de Emília e de sua descendência. E era considerada por todos eles como uma parente chegada e muito querida.  Isso se pode constatar pela honra distinguida pela terceira filha de Emília, a Aristodema (Todda) e seu esposo, José Penido, que a escolheram para ser madrinha de Crisma de sua primogênita. Isto se deu no ano de 1917, décadas após a formatura de Emília, que só se tornara possível graças aos esforços de Faustina em sua cansativa força-tarefa de muitos anos.

Assim, nos registros dos importantes acontecimentos da Família Macedo - Penido, feitos incansavelmente por nosso saudoso pai (José Penido), ao correr dos anos, consta a seguinte anotação: 

“No dia 16 de Outubro de 1917, minha filha Maria Emília foi crismada na matriz desta cidade pelo Excelentíssimo Bispo de Campanha D. João de Almeida Ferrão, sendo vigário da paróquia o Excelentíssimo Cônego José Pinto Gonçalves. Por escolha de minha esposa, e em sinal de gratidão pelos relevantes serviços que lhe tem prestado, foi madrinha da crismada a preta Faustina Maria de Jesus.

Desta forma ficou ultimada a recepção dos Sacramentos da Igreja.

São Gonçalo, 20 out 1917

“José Penido”



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